quinta-feira, 12 de novembro de 2009




-Acho que a amo
-Talvez sim
-Pois vou lhe dizer uma coisa, meu pobre coitado
-O amor nada mais é do que pura luxúria, enganos e mentiras, traições e tolices...
-Mas me dói mesmo assim
-Claro que sim
-O amor é a pior das pestes, mas morrer por amor, seria um prazer
-Isso vai passar
-O meu amor não passa
-Claro que sim. Poucos morrem de amor
-Se tudo é imperfeito nesse mundo imperfeito, então o amor é perfeito em sua imperfeição.
-Você é feliz por conseguir falar tais coisas e acreditar
-Acreditar? Não acredito, só gosto de dar conselhos...


O Sétimo Selo - Ingmar Bergman

domingo, 25 de outubro de 2009

Ando tão à flor da pele
Qualquer beijo de novela
Me faz chorar
Ando tão à flor da pele
Que teu olhar "flor na janela"
Me faz morrer
Ando tão à flor da pele
Meu desejo se confunde
Com a vontade de não ser
Ando tão à flor da pele
Que a minha pele
Tem o fogo
Do juízo final...

Zeca Baleiro

terça-feira, 22 de setembro de 2009


"Durante toda a nossa vida, enfrentamos decisões penosas, escolhas morais. Algumas delas tem grande peso, a maioria não tem tanto valor assim. Mas definimos nós mesmos pelas escolhas que fazemos. Na verdade, somos feitos da soma total de nossas escolhas. Tudo se dá de maneira tão imprevisível, tão injusta, que a felicidade humana não parece ter sido incluída no projeto da Criação. Somos nós, com nossa capacidade de amar, que atribuimos um sentido a um Universo indiferente. Assim mesmo, a maioria dos seres humanos parece ter a habilidade de continuar lutando, e até de encontrar prazer nas coisas simples, como sua família, seu trabalho, e na esperança que as futuras gerações alcancem uma compreensão maior."




"O fato único que ocorreu entre os Isrraelitas, é que eles conceberam um Deus que ama. Ele ama, mais ao mesmo tempo exige um comportamento moral. E aí está o paradoxo. Qual é a primeira coisa que esse deus pede? Pede a Abraão que sacrifique seu único filho. Ou seja, apesar de milênios de tentativas, ainda não logramos criar a imagem de um deus amoroso e benévolo. Isso está além da nossa capacidade de imaginação."



Woody Allen - Crimes e Pecados



"Entender os caminhos do coração, é compreender a malícia e a incapacidade dos deuses que, em vã tentativa de criar um substituto perfeito, deixaram a humanidade confusa e incompleta."

"A vida é inacreditável, milagorasa, triste... maravilhosa."

Mighty Aphrodite - Woody Allen

domingo, 20 de setembro de 2009

Chagamos a tal ponto que a "vida viva" autêntica é considerada por nós quase um trabalho, um emprego, e todos concordamos no íntimo que seguir os livros é melhor. E por que nos agitamos às vezes, por que fazemos extravagâncias? O que pedimos? Nós mesmos não o sabemos. Será pior para nós mesmos se forem satisfeitos os nossos extravagantes pedidos. Bem, experimentai, por exemplodar-nos mais independência, desamarrai a qualquer de nós as mãos, alargai o nosso circulo de atividade, enfraqucei a tutela e nós... eu vos asseguro, no mesmo instante pediremos que se estenda novamente sobre nós a tutela. Sei que talvez ficareis zangados comigo por causa disto, e gritareis, batendo os pés: "Fale de si mesmo e das suas misérias do subsolo, mas não se atreva a dizer 'todos nós'". Mas com licença, meus senhores, eu não estou me justificando com esse todos. E, no que se refere a mim, apenas levei até o extremo, em minha vida, aquilo que não ousastes levar até a metade sequer, e ainda tomastes a vossa covardia por sensatez, e assim vos consolastes, enganando-vos a vós mesmos. De modo que eu ainda esteja mais vivo que vóz. Olhai melhor! Nem mesmo sabemos onde habita agora o que é vivo, o que ele é, como se chama. Deixai-nos sozinhos, sem um livro, e imediatamente ficaremso confusos, vamos perder-nos; não saberemos a quem aderir, a quem nos ater, o que amar e o que odiar, o que respeitar e o que desprezar. Para nós é pesado, até, ser gente, gente com corpo e sangue autênticos, próprios; temos vergonha disso, consideramos tal fato um opróbrio e procuramos ser uns homens gerais que nunca existiram. Somos natimortos, já que não nascemos de pais vivos, e isto nos agrada cada vez mais. Em breve, inventaremos algum modo de nascer de uma idéia. Mas chega; não quero mais escrever "do Subsolo"...

Memórias do Subsolo - Fiódor Dostoiévski

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

"Mas aqui começa uma outra história, a da gradual renovação de um homem, de sua regeneração paulatina. De sua passagem progressiva de um mundo para o outro, do seu conhecimento de uma realidade nova, inteiramente ignorada até aquele momento. Poderia ser a matéria de uma nova narrativa - mas esta que vinhamos narrando termina aqui."
Crime e Castigo - Dostoiévski (Último parágrafo)

Essa renovação também me foi apresentada à pouco.

:D

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Estamos mais do que assoberbados
por centenas de abraços
e um milhão de boas palavras

Nós estamos
satisfeitos
de segunda a sexta
e nos domingos choramos

Mas nós gostamos
desde ponto de vista

Nós nunca mentimos
A partir de dez da manhã
somos honestos até nove.

Estamos mais bonitos
Nunca iremos ensinar a ser rude apenas duas vezes.
Mas nós gostamos desde ponto de vista

Solitaire - Interpol

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O Malandro 2




















O malandro
Tá na greta
Na sargeta
Do país


E quem passa
Acha graça
Na desgraça
Do infeliz

O malandro
Tá de coma
Hematoma
No nariz



E resgando
Sua bunda
Uma funda
Cicatriz

O seu rosto
Tem mais mosca
Que a birosca
Do Mané


O malandro
É um presunto
De pé junto
E com chulé

O coitado
Foi encontrado
Mais furado
Que Jesus

E do estranho
Abdômen
Desse homem
Jorra pus

O seu peito
Putrefeito
Tá com jeito
De pirão

O seu sangue
Forma lagos
E os seus bagos
Estão no chão


O cadáver
Do indigente
É evidente
Que morreu

E no entanto
Ele se move
Como prova
O Galileu

Chico Buarque - A Ópera do Malandro

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Toque de Recolher


"Eu queria escrever algo muito diferente do que tinha escrito antes. A idéia de um ladrão de livros estava em minha cabeça quando escrevi 'I Am the Messenger', mas não estava pronta para ser escrita. A idéia original ambientava-se no presente, em Sydney, e isso não parecia muito certo. Depois, pensei em escrever sobre as coisas que meus pais tinham visto, ao crescerem na Alemanha nazista e na Áustria, e, quando juntei as duas idéias, a coisa pareceu funcionar, especiamente quando pensei na importância das palavras naquela época, e naquilo que elas conseguiram levar as pessoas a acreditar, assim como levá-las a fazer."


Markus Zusak, sobre "A menina que roubava livros".

sábado, 1 de agosto de 2009

Pena

O poeta pena quando cai o pano
E o pano cai
Um sorriso por ingresso
Falta assunto, falta acesso
Talento traduzido em cédula
E a cédula tronco é a cédula mãe solteira

O poeta pena quando cai o pano
E o pano cai
Acordes em oferta, cordel em promoção
A Prosa presa em papel de bala
Música rara em liquidação

E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
A Luz acesa
Lá se dorme um sol em mim menor

[Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior]

O palhaço pena quando cai o pano
E o pano cai
A porcentagem e o verso
A rifa, a tarifa e refrão
Talento provado em papel moeda
Poesia metamorfoseada em cifrão

O palhaço pena quando cai o pano
E o pano cai
Meu museu em obras, obras em leilão
Atalhos, retalhos, sobras
A matemática da arte em papel de pão

E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
A luz acesa
Já se abre um sol em mim maior

[Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior]

O Teatro Mágico

Capitalismo

Consiste em comprar o que não pode, para impressionar quem não conhece.
Minha vida não foi um romance...

Nunca tive até hoje um segredo.

Se me amas, não digas, que morro

De surpresa ... de encanto ... de medo ...


Minha vida não foi um romance ...

Minha vida passou por passar.

Se não amas, não finjas, que vivo

Esperando um amor para amar.


Minha vida não foi um romance ...

Pobre vida ...

passou sem enredo ...

Glória a ti que me enches a vida

De surpresa, de encanto, de medo!


Minha vida não foi um romance ...

Ai de mim ...

Já se ia acabar!

Pobre vida que toda depende

De um sorriso ... de um gesto ... um olhar ...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A media da paixão - Lenine

É como se a gente não soubesse
Pra que lado foi a vida
Por que tanta solidão
E não é a dor que me entristece
É não ter uma saida
Nem medida na paixão

Foi, o amor se foi perdido
Foi tão distraido
Que nem me avisou
Foi, o amor se foi calado
Tão desesperado
Que me machucou

É como se a gente presentisse
Tudo que o amor não disse
Diz agora essa aflição
E ficou o cheiro pelo ar
Ficou o medo de ficar
Vazio demais meu coração

Foi, o amor se foi perdido
Foi tão distraido
Que nem me avisou
Foi, o amor se foi calado
Tão desesperado
Que me maltratou

terça-feira, 21 de julho de 2009

É exatamente isso que humanos fazem: Transformam objetos em pessoas e pessoas em objetos.

Cachaça

E só me vem quando não há certeza
Me desconjuros pra apagar a beleza
Da incertidumbre das mesmas mãos que as suas

E me atinge da melhor maneira
Como cânhamo ou cachaça certeira
Pra antecipar a quarta-feira

Eu vou sair,
Talvez te encontrar
São cinco e meia da manhã
E cadê?

Você sorri movendo quase nada
E antecipa a velha longa estrada
E os teus galhos vão me arborizando nu

Ainda teimo que não sou pra isso
Mas seus olhos gostam de correr o risco
E quero estar só, comigo

Eu vou sair,
Talvez te encontrar
São cinco e meia da manhã

Eu vou sair,
Pra não te encontrar
Não sei que horas da manhã.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Mas, por quê? Por que não ensinam às pessoas, desde bem pequenas, que elas são indivíduos preciosos? Que devem amar não por carência, acreditando desta forma a solidão de suas existências cessará. Mas amar com o coração em paz, com a idéia de que nem a pessoa mais íntima pode compartilhar a sua dor. A dor de não ser hermafrodita, de não ter com quem partilhas as suas entranhas.O homem deve cultivar a si mesmo com amor e cuidado. Acreditar-se eterno. Ser para si próprio eterno, afinal é certo que você será aquele quem mais tempo lhe fará companhia. E deixar o amor livre desta obrigação. Deve o homem acreditar na durabilidade do amor, mas nunca forçá-lo a isso.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público
com livro de ponto espediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas.
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade
tabela de co-senos secretário do amante exemplar
com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar &agraves mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare.
Não quero saber do lirismo que não é libertação.


Manuel Bandeira
Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro - mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua viva, há então uma morte anormal.

domingo, 5 de julho de 2009

E se eu fosse o primeiro a voltar
pra mudar o que eu fiz
quem então agora eu seria?

Tanto faz
que o que não foi não é.
Eu sei que ainda vou voltar...
mas eu quem será?

Deixo tudo assim,
não me acanho em ver
vaidade em mim.
Digo o que condiz.
Eu gosto é do estrago.

Sei do escândalo
e eles têm razão
quando vêm dizer que eu não sei medir
nem tempo e nem medo.

E se eu for o primeiro a prever
e poder desistir do que for dar errado?
Ah, ora, se não sou eu
quem mais vai decidir
o que é bom pra mim?
A Dispenso a previsão!

Ah, se o que eu sou é também
o que eu escolhi ser
aceito a condição.

Vou levando assim
que o acaso é amigo
do meu coração
quando fala comigo,
quando eu sei ouvir...

Aprendizado

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo que da alegria foste ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne
vaporize toda ilusão
que a vida só consome o que a alimenta.

Ferreira Gullar

sábado, 4 de julho de 2009

Quem quiser nascer tem que destruir um mundo

Destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente cômodo e seguro da infância para a conseqüente dolorosa busca da própria razão do existir.
SER É OUSAR SER.

Give me a reason to love you,

Give me a reason to be
A woman
It's all I wanna be is all woman
Give me a reason to be
A woman
It's all I wanna be is all woman.

Você tem fome de que?



Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte
Agora a vida vale menos a cada dia
À medida que amigos e vizinhos partem
E há uma mudança, que mesmo com desculpas não pode ser desfeita
Agora fronteiras mudam como areias dos desertos
Enquanto nações lavam suas mãos ensangüentadas
De lealdade, de história, em tons de cinza

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Não acredito ser alguém que saiba. Tenho sido sempre alguém que busca, mas já agora não busco tanto nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim. Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas, sabe a insensatez e a confusão, a loucura e sonho, como a vida de todos os homens que já não querem mais mentir a si mesmos.

domingo, 28 de junho de 2009

"A propriedade privada tornou-nos tão estúpidos e limitados que um objeto só é nosso quando o possuímos"

Palavras...

Todas as palavras tomadas literalmente são falsas. A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas. A atenção flutua: toca as palavras sem ser por elas enfeitiçada. Cuidado com a sedução da clareza! Cuidado com o engano do óbvio! (Rubem Alves).
"E tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era".
Caio Fernando Abreu
Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão.
When you were here before
Couldn't look you in the eye
You're just like an angel
Your skin makes me cry
You float like a feather
In a beautiful world
I wish
I was specialSo fucking special
But I'm a creep
I'm a weirdo
What the hell am I doing here?
I don't belong here.

sábado, 27 de junho de 2009

O pequeno príncipe não poderia faltar


A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.
Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...

Dois barcos


Quem bater primeira dobra do mar
Dá de lá bandeira qualquer
Aponta pra fé e rema
É, pode ser que a maré não vire
Pode ser do vento vir contra o cais
E se já não sinto teus sinais
Pode ser da vida acostumar
Sobre estar só, eu sei
Nos mares por onde andei
Devagar
Dedicou-se mais
O acaso a se esconder
E agora o amanhã, cadê?
Só eu sei
Nos mares por onde andei
Devagar
Dedicou-se mais
O acaso a se esconder
E agora o amanhã, cadê?
Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, a força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.
Memórias póstumas de Brás Cubas- Machado de Assis

É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...
E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social...
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...
Ah!Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...
Raul Seixas

Liberdade!

Perceber aquilo que se tem de bom no viver é um dom
Daqui não
Eu vivo a vida na ilusão
Entre o chão e os ares
Vou sonhando em outros ares, vou
Fingindo ser o que eu já sou
Fingindo ser o que já sou
Mesmo sem me libertar eu vou
É Deus, parece que vai ser nós dois até o final
Eu vou ver o jogo se realizar de um lugar seguro
De que vale ser aqui
De que vale ser aqui
Onde a vida é de sonhar?
Liberdade!

Marcelo Camelo

Máscaras

Há mulheres que, por mais que as pesquisemos, não têm interior, são puras máscaras. É digno de pena o homem que se envolve com estes seres quase espectrais, inevitavelmente insatisfatórios, mas precisamente eles são capazes de despertar da maneira mais intensa o desejo do homem: ele procura a sua alma - e continua procurando para sempre.
Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida.
Ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses
que se oferecerão para levar-te além do rio
mas isso te custaria a tua própria pessoa
tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar.
Onde leva?
Não perguntes, segue-o!

Dancem macacos, dancem!

Há bilhões de galáxias no universo observável e cada uma delas contém centenas de bilhões de estrelas, em uma dessas galáxias orbitando uma dessas estrelas há um pequeno planeta azul e este planeta é governado por um bando de macacos. Mas esse macacos não pensam em si mesmos como macacos. Eles nem se quer pensam em si mesmos como animais, de fato, eles adoram listar todas as coisas que eles pensam separá-los dos animais: Polegares opositores, autoconsciência, eles usam palavras como Homo Erectus e Australopithecus. Você diz to-ma-te eu digo to-ma-ti. Eles são animais, certo?
Eles são macacos. Macacos com tecnologia de fibra ótica digital de alta velocidade mas ainda assim macacos. Quero dizer, eles são espertos, você tem que conceder isso. As pirâmides, os arranha-céus, os jatos, a Grande Muralha da China, isso tudo é muito impressionante, para um bando de macacos.
Macacos cujos cérebros evoluíram para um tamanho tão ingovernável que agora é bastante impossível para eles ficarem felizes por muito tempo, na verdade, eles são os únicos animais que pensam que deveriam ser felizes, todos os outros animais podem simplesmente ser.
Mas não é tão simples para os macacos, pois os macacos são amaldiçoados com a consciência e assim os macacos têm medo, os macacos se preocupam, os macacos se preocupam com tudo mas acima de tudo com o que todos os outros macacos pensam. Porque os macacos querem desesperadamente se encaixar com os outros macacos. O que é bem difícil, porque a maior parte dos macacos se odeia.
Isto é o que realmente os separa dos outros animais. Estes macacos odeiam. Eles odeiam macacos que são diferentes, macacos de lugares diferentes, macacos de cores diferentes.
Sabe, os macacos se sentem sozinhos, todos os 6 bilhões deles.
Alguns dos macacos pagam outros macacos para ouvir seus problemas. Os macacos querem respostas, os macacos sabem que vão morrer, então os macacos fazem deuses e os adoram. Então os macacos começam a discutir quem fez o deus melhor, e os macacos ficam irritados e é quando geralmente os macacos decidem que é uma boa hora de começar a matar uns aos outros.
Então os macacos fazem guerra. Os macacos fazem bombas de hidrogênio, os macacos têm o planeta inteiro preparado para explodir, os macacos não sabem o que fazer.
Alguns dos macacos tocam para uma multidão vendida de outros macacos. Os macacos fazem troféus e então eles os dão para si mesmos como se isto significasse algo.
Alguns dos macacos acham que sabem de tudo, alguns dos macacos lêem Nietzsche, os macacos discutem Nietzsche sem dar qualquer consideração ao fato de que Nietzsche era só outro macaco.
Os macacos fazem planos, os macacos se apaixonam, os macacos fazem sexo e então fazem mais macacos. Os macacos fazem música, e então os macacos dançam, dancem macacos, dancem! Os macacos fazem muito barulho, os macacos têm tanto potencial. Se eles pelo menos se dedicassem. Os macacos raspam o pêlo de seus corpos numa ostensiva negação de sua verdadeira natureza de macaco.
Os macacos constroem gigantes colméias de macacos que eles chamam de "cidades". Os macacos desenham um monte de linhas imaginárias na terra. Os macacos estão ficando sem petróleo, que alimenta sua precária civilização. Os macacos estão poluindo e saqueando seu planeta como se não houvesse amanhã. Os macacos gostam de fingir que está tudo bem.
Alguns dos macacos realmente acreditam que o universo inteiro foi feito para seu benefício, como você pode ver, esses são uns macacos atrapalhados.
Estes macacos são ao mesmo tempo as mais feias e mais belas criaturas do planeta, e os macacos não querem ser macacos, eles querem ser outra coisa mas não são.
Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
Experiência não é o que acontece com um homem; é o que um homem faz com o que lhe acontece.

O essencial da guerra é a destruição, não necessariamente de vidas humanas, mas de produtos do trabalho humano. A guerra é um meio de despedaçar, ou de libertar na estratosfera, ou de afundar nas profundezas do mar, materiais que de outra forma teriam de ser usados para tornar as massas demasiado confortáveis e, portanto, com o passar do tempo, inteligentes.
Quanto mais envelhecia, quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava, tanto mais claramente compreendia onde eu deveria procurar a fonte das alegrias da vida. Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo. O dinheiro não era nada, o poder não era nada. Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz.A beleza não era nada. Vi homens e mulheres belos, infelizes, apesar de sua beleza.Também a saúde não contava tanto assim. Cada um tem a saúde que sente. Havia doentes cheios de vontade de viver e havia sadios que definhavam angustiados pelo medo de sofrer. A felicidade é amor, só isto. Feliz é quem sabe amar. Feliz é quem pode amar muito. Mas amar e desejar não é a mesma coisa. O amor é o desejo que atingiu a sabedoria. O amor não quer possuir. O amor quer somente amar.
Hermann Hesse
Se você odeia alguém, é porque odeia alguma coisa nele que faz parte de você. O que não faz parte de nós não nos perturba.
Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinada por virtude, e sim como reação contra a minha negligência. Que pareço generosa para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiada e sempre penso o pior, que sou conciliadora para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco.